sexta-feira, 28 de março de 2014

NO INTERVALO DA IRMANDADE – Sugestões de Leitura




Boa sexta-feira e bom fim de semana.


Hoje vou falar de uma coisa que é a menina dos meus olhos.

Podia ser mi Micas... mas essa é a musa da minha alma...

(Para quem não sabe, ando a vasculhar nas minhas estantes os livros do Grupo Leya)

E a menina é...

As Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss:

- O Nome do Vento – dia Um
- O Medo do Homem Sábio – dia Dois (parte 1 e parte 2)

Esqueçam sexo e gajos babosos. Este é um livro-livro, uma coisa espetacular no domínio da Literatura Fantástica. É uma história só, mas como tem mais de três mil páginas, foi dividida em vários livros para publicação.

Já ouvi gente a dizer que foi a coisa mais horrível que leram, chamando a atenção para o facto de terem lido a primeira página do Crepúsculo. Realmente, dizer que não se gosta de crisântemos no jardim, porque já se viu uma erva daninha numa fotografia, é no mínimo suspeito
.
Mas os gostos não se discutem. Ah… mas a tolice… era bichinho para discutir e muito!




(Só mostrei a capa destes dois porque o outro está emprestado)

A uma estalagem vai ter um cronista que tinha sido assaltado na estrada. Reconhece o dono do estabelecimento como sendo, na verdade, Kvothe, uma lenda, e que se julgava morto. Kvothe é ainda um homem novo, concorda contar-lhe a sua vida em três dias para que o cronista a possa registar.

No dia um: O Nome do Vento, conhecemos a infância. Ele vem de uma família de artistas nómadas, aprendeu música, representação e as letras com os pais e com outros viajantes que se juntavam à caravana. Os pais são assassinados à frente dele por algo que ele tenta descobrir, mas que, para todos os efeitos, seriam figuras imaginárias dos contos infantis. Vai viver nas ruas e chega à universidade sempre com o propósito de aceder à Biblioteca (vivia fascinado com o conhecimento que se adquiria dos livros), descobrir o nome do vento e os assassinos dos pais. (976 páginas)

No dia dois – O Medo do Homem Sábio, vemos a adolescência dele até a vida adulta. Irá viajar por vários locais, contactar de perto com pessoas de todos os tipos: desde cultura ao estrato social, terá a sua primeira experiência sexual nos braços de uma fada… (1392 páginas no total)

O dia três... acho que só sai em 2015 e, provavelmente chamar-se-á As Portas de Pedra (Doors of Stone) e estou à espera dele desde 2011... Odeio ter de esperar por livros...


Claro que isto nem é resumo, tantas são as aventuras, peripécias e sei lá mais o quê que lhe vai acontecendo. Assistimos ao crescimento de uma lenda – uma história que é fruto de crendices, superstições e boatos. Não é que Kvothe não fosse extraordinário, porque isso é falso. Ele é extremamente inteligente e tem poderes naturais e sobrenaturais dignos de se tornarem lendários... Digamos que é um Harry Potter que sabe o que faz, que estuda, que conhece os fundamentos científicos da magia que pratica. Aliás, a magia é, no fim de contas, um fenómeno racional visto sob a perspetiva da ignorância.

Tratando-se de literatura fantástica, vamos encontrar seres extraordinários, num mundo de gente diferente, com costumes bizarros, formas de ser e falar que não são deste mundo. Tudo foi recriado, desde sistema monetário, político, cultural até ao religioso.

Se não bastasse a história fabulosa, a escrita de Patrick Rothfuss é excelente. São criados momentos para tudo: para rir, para pensar, para sensibilizar, para impressionar, para nos enamorarmos… há inocência, há maldade, há sonho, há loucura, há morte, há poesia…

Numa palavra: apaixonei-me por Kvothe. E ele é ruivo. Odeio ruivos. Amo o Kvothe.

Para além dos títulos e capas maravilhosas, o livro é apresentado com este excerto:

“Chamo-me Kvothe.
Resgatei princesas dos túmulos de reis adormecidos, incendiei Trebon. Passei a noite com Felurian e parti com a sanidade e com a vida. Fui expulso da Universidade na idade em que a maioria dos alunos é admitida. Percorri caminhos ao luar que outros receiam nomear durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e compus canções que fazem chorar os trovadores.
É possível que me conheçam.”


Alguns atiçadores de leitura e exemplos do que falo:



Prólogo
Um Silêncio em Três Partes


A noite voltara a cair. A Estalagem Pedra de Caminho permanecia em silêncio, um silêncio em três partes.
A parte mais óbvia desse silêncio era uma quietude oca e vazia, gerada por coisas em falta. Se houvesse vento, teria suspirado por entre as árvores, fazendo chiar nos seus ganchos a placa com o nome da estalagem e varrendo o silêncio pela estrada fora como fazia às folhas caídas no Outono. Se houvesse uma multidão, ou mesmo um punhado de homens no interior, teriam preenchido o silêncio com conversa e riso, com o clamor e os ruídos que se esperariam de uma taberna durante as horas mais escuras da noite. Se houvesse música… mas não, claro que não havia música. Não havia, aliás, nada disto e, assim, o silêncio permanecia.
(…)
Tinha o cabelo de um vermelho vivo, vermelho de fogo. Os olhos eram escuros e distantes, e movia-se com a certeza subtil de quem sabe demasiado.
A Pedra de Caminho pertencia-lhe, tal como o terceiro silêncio. Era adequado, por ser o maior silêncio dos três, ao conter os outros no seu interior. Era profundo e amplo como o fim do Outono. Era pesado como uma grande rocha polida pelo fluir de um rio. Era o som paciente e resignado de um homem que aguarda a morte.


[A diferença entre palavra e nome]


"- De que cor é a camisa daquele rapaz?
- Azul.
- Azul como? Descreve o conceito.
Esforcei-me por um momento e desisti.
- Então azul é um nome?
- É uma palavra. As palavras são sombras pálidas de nomes esquecidos. Possuem poder, tal como os nomes. As palavras conseguem atear chamas nas mentes dos homens. Conseguem extrair lágrimas ao coração mais duro. Existem sete palavras que farão alguém amar-te. Existem dez palavras capazes de quebrar a vontade de um homem forte. Mas uma palavra não passa de uma representação de um fogo. Um nome é o próprio fogo. (...) Usar palavras para falar de palavras é como usar um lápis para desenhar um lápis no próprio lápis. Impossível. Confuso. Frustrante.

[Segredos do coração e segredos da boca]

(...) Teccam explica que existem dois tipos de segredos. Os segredos da boca e os segredos do coração.
A maior parte dos segredos será da boca. Mexericos partilhados e pequenos escândalos ouvidos em sussurro. Estes segredos anseiam pela libertação no mundo. Um segredo na boca é como uma pedra na bota. Primeiro, mal se dá pela sua presença. Depois, torna-se irritante e, logo a seguir, intolerável. Os segredos da boca crescem com o tempo que os guardamos, inchando até pressionarem os lábios. Lutam pela liberdade.
Os segredos do coração são diferentes. São privados e dolorosos e queremos escondê-los do mundo. Não crescem nem forçam a sua libertação. Vivem no coração e, quanto mais os guardamos, mais pesados se tornam.
Teccam afirma que é melhor ter a boca cheia de veneno do que ter um segredo do coração.

[O amor verdadeiro é o insensato]


Sim. Tinha defeitos, mas que importará isso para o coração? Amamos o que amamos. A razão não se intromete. De muitas formas, o amor menos sensato será o mais verdadeiro. Qualquer um conseguirá amar uma coisa "porque". É tão fácil como guardar um tostão no bolso. Mas amar alguma coisa "apesar de", conhecer os defeitos e amá-los também, é algo raro e perfeito.

Beijos bons
Leyam livros.

2 comentários:

Boa sexta e bom fim de semana!
Os livros parecem ser interessante, mas já tenho uma grande fila de espera e não é boa ideia comprar mais :P

Com estas indicações de livros tão boas lá se vai o meu dinheirinho todo....

Obrigada pelos conselhos morceguinha.